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Uma enquete realizada pelo La Gazzetta dello Sport mostrou torcedores italianos bastante esperançosos com Fisichella para o próximo GP, muitos deles acreditando inclusive em vitória. Otimistas demais, os tifosi? Talvez. Mas o fato é que eles já viram isso antes.Um italiano vencer na Itália em sua primeira corrida de Ferrari. Sim, já aconteceu. O piloto em questão era Giancarlo Baghetti. O ano, 1961. A prova, o GP de Siracusa, não válida para o campeonato mundial, disputada nas ruas da cidadezinha siciliana.Há poucas explicações convincentes sobre por quê a Scuderia confiou seu único carro na prova a um estreante - a mais convincente delas, por Baghetti ser filho de um promissor empresário italiano. Logo nos treinos, a escolha se revelou certeira: foi o primeiro a baixar de 2 minutos o tempo da volta, e parecia que conseguiria a pole, até Dan Gurney cruzar a linha de chegada e a chuva começar a cair.Na primeira passagem pelo grampo, Baghetti deixou passar o ponto de frenagem, caindo para sexto. Ao sexto giro de 56, era o líder. Ultrapassara nada menos que: Graham Hill, Jack Brabham, Innes Ireland, Jo Bonnier, John Surtees e Gurney. Como se pode ver na foto, porém, o norte-americano não deixou sua Porsche sair do raio de visão dos retrovisores da Ferrari. Na exata metade da prova, era o novo líder - para retornar ao segundo posto pouco depois.A pista de Siracusa era entremeada por muros de ambos os lados na maior parte do percurso, tinha longas retas, algumas curvas muito rápidas e a corrida era longa. O jovem, inexperiente Baghetti finalmente perdeu a concentração e saiu da pista - após receber a bandeirada.Mais de dois meses depois, venceria sua segunda corrida de Fórmula 1. Outra vez com a Ferrari, outra vez após segurar Gurney, em Reims, no GP da França, este sim válido para o mundial. Seria também sua última.Siracusa perdeu gradualmente a importância ao longo dos anos 60, mas frequentemente era o palco de pequenos milagres envolvendo a Ferrari. O último deles, na última prova, em 1967, quando Ludovico Scarfiotti e Mike Parkes cruzaram a linha de chegada empatados - a única corrida que se tem notícia na qual duas Ferrari venceram.
Giancarlo Fisichella realiza seu sonho. O meu sonho. O seu sonho. Sobre Fisichella, tanto já foi dito, que talvez seja melhor falar sobre sonhos.
Pois então, aqui começa o post. Para muitos, a frase colocada no título inaugura o século XX, mesmo que cunhada pouco antes do nascimento de Cristo. Seu autor não poderia ter dados biográficos mais coincidentes: romano, como Fisichella; embora nascido na região de Mântua.
“Se não posso submeter as forças superiores, moverei o Acheronte”, exclama o provérbio (os amantes do Lácio me corrijam se estiver errado). O Acheronte, diz a mitologia, é o rio que leva as almas ao mundo dos mortos – algo que os cristãos deram outra função e outro nome, que talvez você conheça: Inferno.
Quando Dante Alighieri, no meio do caminho de sua vida, se põe a adentrar pelos nove círculos do Inferno em busca da amada Beatriz, é o autor deste provérbio que o toma pela mão.
O século passado começa quando um médico austríaco faz ressoar a frase supracitada no prefácio de um livro. O médico se chama Sigmund Freud, e o livro, A Interpretação dos Sonhos. A um só golpe, Freud nos abre um século, o nosso inconsciente e os portões do inferno.
Não foi pouco o espanto e as críticas que acompanharam esta frase. Até hoje ela é pouco compreendida. Para a psicanálise, não somos os senhores de nossos próprios desejos e aspirações: pelo contrário, eles nos controlam. Muitas vezes, porém, nossos desejos não condizem com aquilo que os outros (ou “o Outro”) esperam de nós, e somos obrigados a mantê-los guardados nos porões de nossa subjetividade. Em suma, carregamos cada um nosso inferno dentro de nós.
No entanto, guardar para si um desejo não é uma tarefa simples. Nossos porões têm frestas, e se não tiverem, a pulsão daquilo que guardamos neles é tão forte que serão logo cavados.
Quando dormimos, arrefecemos as barreiras que contém tais pulsões. Elas saem então de forma velada, escondidas através de símbolos e metáforas. É o que chamamos de sonhos. Por isso, quando um desejo se realiza (como se pode notar no início do post), dizemos que “foi realizado um sonho”.
E é precisamente aqui, na realização do desejo, que o provérbio entra na história. Lembre-se, se o guardamos em nosso “inferno”, deve haver algum motivo. O mais freqüente é que o desejo nos implique uma atitude que deploramos. Apaixonar-se por uma pessoa comprometida, ou do mesmo sexo, ou se estamos comprometidos em uma relação, por exemplo. Ou se tal realização implique na morte de alguém - tudo depende do que julgamos ser ou não deplorável.
Acontece que nossos desejos não se prendem às nossas convicções. Sublinha-se: eles nos controlam. E se as forças do Céu não nos favorecem, moveremos sem hesitar as forças do Inferno.
Fisichella realiza um desejo: pilotar a Ferrari. Para que isto ocorresse, teve que mover as forças do inferno: Felipe Massa teve de sofrer um acidente grave, e Luca Badoer teve de ser queimado.
Talvez seja por isso que gostemos de Fórmula 1, porque ela nos preenche uma necessidade intrínseca: realizar nossas pulsões de morte sem ter que suportar o peso da culpa que trazem consigo.
“Estou no sétimo céu”, disse Fisichella. Seria mero acaso ele ter usado uma metáfora dantesca na primeira declaração como piloto da Ferrari?