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Tuesday, February 10, 2009

Grande Prêmio de Monza 1948 - A reconstrução do templo

O Gran Premio di Monza foi marcado para o dia 17 de outubro, a pista retornando ao cenário automobilístico após uma ausência de dez anos. Apesar de não ter sido uma Grande Épreuve (título conferido aos Grandes Prêmios mais importantes), a corrida recebeu relativa atenção.

O traçado foi restaurado da maneira como ele existia desde 1938, um pouco diferente da pista atual, com 6,3km, sem o setor oval. A curva que dava acesso à reta dos boxes era um complexo chamado Vedano, de duas pernas bastante fechadas, existente até 1954. Aquilo que hoje chamamos de Parabolica foi construída no ano seguinte, quando da restauração do oval.

O evento teria 80 voltas e 504km, e os organizadores mais uma vez limitaram a largada a 20 carros. O resultado final foi o mais lógico: as quatro Alfettas nas quatro primeiras posições. Mais uma vez, Wimille foi o vencedor; Trossi chegou em segundo, à frente de Sanesi e Piero Taruffi. Apenas os três primeiros completaram o número total de voltas. Ascari, outra vez a melhor não-Alfa Romeo classificada, conseguiu percorrer tão somente 75 giros.

Esta celebração em Monza, entretanto, ganhou contornos trágicos posteriormente. Foi a última corrida importante que os dois primeiros, Wimille e Trossi, disputaram. Este último largara sabendo estar doente, sofrendo inclusive com dores ao longo da corrida. Consta que, quando parou para abastecer, seu chefe de equipe perguntou se não achava melhor abandonar. Não o fez, mas abandonou as pistas para lutar contra um tumor cerebral que lhe consumiria a vida em maio do ano seguinte.

Wimille tinha viajado para a América do Sul para competir na temporada sul-americana de Fórmula Libre, com provas na Argentina e no Brasil, que abrangia os eventos internacionais em Interlagos e na Gávea. Nos treinos para a primeira corrida, o Gran Premio del General Juan Perón y de la Ciudad de Buenos Aires, realizado nas ruas do bairro de Palermo da capital argentina, o piloto francês morreu a bordo de um Simca-Gordini, no dia 28 de janeiro de 1949. Era um dos favoritos para o primeiro Campeonato Mundial de pilotos, anunciado para 1950.

Talvez não por acaso, justamente em 1949 um nome começou a se repetir entre os vencedores das provas da Europa: Juan Manuel Fangio.



Saturday, February 7, 2009

Turim, 1948

A restauração de Monza, levada a cabo pelo Automóvel Clube de Milão no ano do Plano Marshall, 1948, foi realizada rapidamente. Em 17 de outubro já seria realizado o GP de Monza, primeiro evento no local após a Guerra.

Mas apesar de importante, a prova não teve status de GP da Itália, este conferido à corrida realizada em 5 de setembro, em Turim. Ocorreu num traçado urbano chamado de Parco Valentino, próximo ao castelo homônimo. Houve corridas ali em anos irregulares, de 1935 a 1955, com o nome de Grande Prêmio de Valentino – em 48, tanto este título quanto GP da Itália foram considerados oficiais.

Durante os 20 anos, o percurso mudou constantemente, sendo raro que duas provas tenham sido realizadas no mesmo traçado. Naquele ano, ela se deu em um percurso de 4,8 km com algumas grandes retas, muitos cotovelos e alguns trechos sinuosos de alta velocidade.

Foram 28 inscrições, mas apenas 20 pilotos largariam. Ao fim das úmidas 75 voltas, o parisiense Jean-Pierre Wimille sagrou-se vitorioso, em uma ótima fase de sua carreira (havia vencido também o GP da França), a bordo de uma Alfa Romeo.

Não foi, entretanto, um GP só de alegrias para a Alfa Corse, a equipe da fábrica. Na volta 42, Consalvo Sanesi sofreu um acidente e foi obrigado a abandonar. A equipe, então, lançou mão de um recurso permitido naqueles tempos e bastante em voga: chamou Carlo Felice Trossi aos boxes e mandou entregar o carro a Sanesi.

Ignora-se o porquê dessa decisão, já que poucos relatos da prova sobreviveram. À época, dizia-se que Trossi era melhor piloto. Sanesi, ex-mecânico, era o piloto de testes oficial da equipe, conhecia bem a 158 que tinha ao volante, o que sempre lhe rendeu pole positions, mas poucos bons resultados finais. De qualquer forma, Sanesi abandonou pela derradeira vez na volta 53, por problemas no compressor.

O GP teve ainda Gigi Villoresi em segundo, de Maserati, e Raymond Sommer em terceiro. Alberto Ascari foi o quarto, e outro futuro campeão mundial também estava no grid: Giuseppe Farina acidentara-se na volta 51.


Nesta foto, Raymond Sommer (28), em uma Ferrari 125, é perseguido pela Maserati 4CLT/48 de Luigi Villoresi (40). Villoresi chegou em segundo, uma volta à frente de Sommer: completou 74 giros, enquanto o ferrarista fez 73. Wimille, o vencedor, percorreu 75 voltas, num total de 360,00 km.
Crédito: Forix

Thursday, February 5, 2009

1947, o GP da Itália vai às ruas


“Monza caiu em certo ostracismo durante a Segunda Guerra, sendo utilizada como área de armazenamento de veículos governamentais, e até de animais do zoológico local, e um desfile dos Aliados em 1945 destruiu a reta principal do circuito”.

O trecho acima, retirado do
Grand Prix History, revela o porquê de o GP da Itália ter sido disputado fora de Monza no fim dos anos 1940. Tivesse o circuito sobrevivido, os italianos talvez não ousariam mudar a sede da sua amada corrida.

Não era a primeira vez, contudo. O primeiro GP da Itália, em 1921, foi realizado um ano antes da inauguração da pista, em Brescia, cidade que tem seu lugar na história do automobilismo italiano: foi o ponto de partida e chegada de todas as Mille Miglia disputadas, entre 1927 e 57. A partir de então sua sede se mudou de forma quase definitiva para o Autodromo Nazionale di Monza, para apenas sair em 1937, preterido por Livorno. Este ocorrido, porém, talvez deva ser considerado mais uma tentativa frustrada de anular a maior potência dos motores alemães em relação aos italianos. Nas retas de Monza, Mercedes e Auto Unions deixavam Maseratis e Alfa Romeos muito para trás, mas mesmo numa pista mais sinuosa como Livorno os prateados eram superiores. A vitória, naquele ano, foi de Caracciola em uma Mercedes.

Passada a Guerra, Monza não estava apta a receber corridas. A Itália, em ruínas, retomou a organização de eventos automobilísticos ao fim de 1946, e apenas no ano seguinte promoveu um GP nacional.

O Automóvel Clube de Milão, responsável por Monza, realizou a prova em 7 de setembro. Já houvera corridas nas ruas da cidade, em diferentes traçados em Parco Sempione, mas resolveu-se, em 47, correr na região de Fiera Campionara, num traçado de 3.447 metros, que incluía várias curvas simples e rápidas, uma espécie de esse mais complexo, com uma primeira perna mais rápida (a primeira curva após a largada) e o contorno de uma rotatória.

Para as 100 voltas, foi reunido um invejável grid de 20 ou 22 carros (as fontes divergem, mas a Grã-Bretanha, por exemplo, jamais alinhou mais de 15 carros naquele ano), embora com desempenhos irregulares: enquanto Consalvo Sanesi conquistava a pole com 1m44s0 em uma
Alfa 158, Nello Pagani foi o último dos inscritos ao virar 2m10s0 em uma Maserati 4 CL. Não culpemos o carro, porém. Alberto Ascari alinhou na quinta posição com o mesmo modelo e o tempo de 1m47s2.

Não há relatos detalhados sobre a prova, apenas os resultados oficiais. O vencedor foi Carlo Felice Trossi, um talento promissor nascido em Biella (curiosamente um celeiro de pilotos, terra de, entre outros, Giovanni Bracco, que também participou da corrida, em um Delage) que talvez fosse muito mais famoso hoje em dia caso um tumor cerebral não o matasse em 1949, aos 41 anos. Ele pilotava, claro, uma invencível Alfa Romeo, assim como Achille Varzi, segundo colocado que retomava sua carreira após ter superado o vício em opiáceos durante a Guerra. Varzi morreria menos de um ano depois, nos treinos do GP da Suíça de 1948 (coincidência: vencido por Trossi).

O inspirado Luigi Villoresi, que largara em terceiro com uma Maserati à frente de Varzi, abandonou por problemas com os freios na 53a volta.

No ano seguinte, 1948, ano da instauração do Plano Marshall, o Automóvel Clube de Milão decidiu restaurar seu autódromo, mas o GP da Itália ainda não seria disputado lá. A continuação da história, porém, fica para o próximo post.