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Friday, November 6, 2009

Do que esqueci em 2009 - A morte de Wimille


Com o fim da temporada, posso finalmente me dedicar a corrigir alguns dos erros de percurso enfrentados durante o ano: neste caso, registrar algumas efemérides que me passaram despercebidas e/ou que me ocorreram tarde demais.

A primeira delas, como não poderia deixar de ser, são os 60 anos da morte de Jean-Pierre Wimille. No dia 28 de janeiro, o francês treinava nas contorcidas ruas do bairro de Palermo, em Buenos Aires, para a primeira etapa de uma série mais ou menos regular de corridas de Fórmula Libre que ocorriam no Brasil e na Argentina. A prova não poderia ter um título menos personalista, como convém ao populismo latino-americano: Gran Premio del General Juan Perón y de la Ciudad de Buenos Aires (por motivos históricos, pode-se dizer apenas "GP de Buenos Aires").

Não se sabe o que ocasionou a batida do pequeno Simca-Gordini. Especulou-se que poderia ter sido a luz do sol que ofuscou a vista do pioto, ou sua tentativa de desviar de torcedores no traçado. O bólido francês bateu contra uma proteção da pista, voou, atingiu árvores. Foi a primeira corrida em que Wimille, 41, usou um capacete - incapaz, no entanto, de salvar sua vida. Alguns relatos dizem que, dentro da ambulância o piloto ainda conseguiu perguntar "o que aconteceu?", mas chegou sem vida ao hospital.

Jean-Pierre Wimille é considerado um dos melhores pilotos de sua geração, e regularmente chamado de "o piloto que venceria o primeiro campeonato mundial". Não à toa: era o primeiro piloto da Alfa Romeo, tendo conquistado o posto no braço, ao provar-se sistematicamente mais veloz que Giuseppe Farina.

O automobilismo deu ao francês o fim que a Guerra não foi capaz de lhe dar. Convidado pelo também piloto Robert Benoist, participou ativamente da Resistência contra a ocupação nazista, obtendo destaque na clandestinidade. Benoist não teve a mesma sorte.

Saturday, August 15, 2009

GP das Nações 1946

Se nesta semana presenciamos uma história de desistência forçada na Fórmula 1 será bom recordar uma história de perseverança. Como já foi dito recentemente, Nuvolari vinha de vitória em Albi, mas agora as Alfa estariam presentes

Não se pode dizer, porém, que tenha sido uma corrida fantástica do piloto italiano. Muito pelo contrário! Se houve um piloto excelente neste fim de semana, chamava-se Jean-Pierre Wimille e corria pela equipe Alfa Romeo, que lhe deu um chassi de antes da Guerra para correr – os dois únicos carros novos que dispunham foram delegados a Giuseppe Farina e Achille Varzi. Não obstante, Wimille liderava incontestavelmente, seguido por Farina, após intensa disputa com este (na foto abaixo, o italiano aparece na frente).

A determinada altura, uma Maserati surge à frente de Wimille. Era Nuvolari, momentos antes de se tornar retardatário. O francês se aproxima e, numa curva fechada, se coloca por dentro, apenas para ser jogado para fora da pista ao final do contorno.

O que teria motivado o grande Nuvolari a abalroar o líder? Havia ele perdido a sanidade? Não queria admitir que agora teria de dividir a glória com uma nova geração? Ninguém nunca soube responder. Wimille voltou à pista, mas atrás de dois de seus companheiros, Trossi e o agora líder Farina.

A Alfa e seu piloto manifestaram uma justificada raiva com o gesto de Nuvolari, entrando com uma representação à direção de prova, que acatou o pedido, e acenou a bandeira preta para a Maserati, para que Tazio se recolhesse aos boxes. Na volta seguinte, o italiano corta a reta com o pé embaixo. A bandeira lhe é mostrada novamente. Ele completa outra volta, novamente com a bandeira preta agitada. E mais outra. Tão inexplicável quanto o toque em Wimille é a recusa do piloto em obedecer às ordens da organização. E outra vez a bandeira lhe era agitada, e outra vez ignorada.

A um certo momento, as bandeiras pretas sumiram. Farina venceu, seguido por Trossi e Wimille – Nuvolari foi classificado em quarto lugar. Poderia ele não ser mais imbatível ou incontestável. Poderia ele estar, atrás de sua máscara, sofrendo de problemas respiratórios. Mas ainda era o teimoso il grande.



Tuesday, February 10, 2009

Grande Prêmio de Monza 1948 - A reconstrução do templo

O Gran Premio di Monza foi marcado para o dia 17 de outubro, a pista retornando ao cenário automobilístico após uma ausência de dez anos. Apesar de não ter sido uma Grande Épreuve (título conferido aos Grandes Prêmios mais importantes), a corrida recebeu relativa atenção.

O traçado foi restaurado da maneira como ele existia desde 1938, um pouco diferente da pista atual, com 6,3km, sem o setor oval. A curva que dava acesso à reta dos boxes era um complexo chamado Vedano, de duas pernas bastante fechadas, existente até 1954. Aquilo que hoje chamamos de Parabolica foi construída no ano seguinte, quando da restauração do oval.

O evento teria 80 voltas e 504km, e os organizadores mais uma vez limitaram a largada a 20 carros. O resultado final foi o mais lógico: as quatro Alfettas nas quatro primeiras posições. Mais uma vez, Wimille foi o vencedor; Trossi chegou em segundo, à frente de Sanesi e Piero Taruffi. Apenas os três primeiros completaram o número total de voltas. Ascari, outra vez a melhor não-Alfa Romeo classificada, conseguiu percorrer tão somente 75 giros.

Esta celebração em Monza, entretanto, ganhou contornos trágicos posteriormente. Foi a última corrida importante que os dois primeiros, Wimille e Trossi, disputaram. Este último largara sabendo estar doente, sofrendo inclusive com dores ao longo da corrida. Consta que, quando parou para abastecer, seu chefe de equipe perguntou se não achava melhor abandonar. Não o fez, mas abandonou as pistas para lutar contra um tumor cerebral que lhe consumiria a vida em maio do ano seguinte.

Wimille tinha viajado para a América do Sul para competir na temporada sul-americana de Fórmula Libre, com provas na Argentina e no Brasil, que abrangia os eventos internacionais em Interlagos e na Gávea. Nos treinos para a primeira corrida, o Gran Premio del General Juan Perón y de la Ciudad de Buenos Aires, realizado nas ruas do bairro de Palermo da capital argentina, o piloto francês morreu a bordo de um Simca-Gordini, no dia 28 de janeiro de 1949. Era um dos favoritos para o primeiro Campeonato Mundial de pilotos, anunciado para 1950.

Talvez não por acaso, justamente em 1949 um nome começou a se repetir entre os vencedores das provas da Europa: Juan Manuel Fangio.



Saturday, February 7, 2009

Turim, 1948

A restauração de Monza, levada a cabo pelo Automóvel Clube de Milão no ano do Plano Marshall, 1948, foi realizada rapidamente. Em 17 de outubro já seria realizado o GP de Monza, primeiro evento no local após a Guerra.

Mas apesar de importante, a prova não teve status de GP da Itália, este conferido à corrida realizada em 5 de setembro, em Turim. Ocorreu num traçado urbano chamado de Parco Valentino, próximo ao castelo homônimo. Houve corridas ali em anos irregulares, de 1935 a 1955, com o nome de Grande Prêmio de Valentino – em 48, tanto este título quanto GP da Itália foram considerados oficiais.

Durante os 20 anos, o percurso mudou constantemente, sendo raro que duas provas tenham sido realizadas no mesmo traçado. Naquele ano, ela se deu em um percurso de 4,8 km com algumas grandes retas, muitos cotovelos e alguns trechos sinuosos de alta velocidade.

Foram 28 inscrições, mas apenas 20 pilotos largariam. Ao fim das úmidas 75 voltas, o parisiense Jean-Pierre Wimille sagrou-se vitorioso, em uma ótima fase de sua carreira (havia vencido também o GP da França), a bordo de uma Alfa Romeo.

Não foi, entretanto, um GP só de alegrias para a Alfa Corse, a equipe da fábrica. Na volta 42, Consalvo Sanesi sofreu um acidente e foi obrigado a abandonar. A equipe, então, lançou mão de um recurso permitido naqueles tempos e bastante em voga: chamou Carlo Felice Trossi aos boxes e mandou entregar o carro a Sanesi.

Ignora-se o porquê dessa decisão, já que poucos relatos da prova sobreviveram. À época, dizia-se que Trossi era melhor piloto. Sanesi, ex-mecânico, era o piloto de testes oficial da equipe, conhecia bem a 158 que tinha ao volante, o que sempre lhe rendeu pole positions, mas poucos bons resultados finais. De qualquer forma, Sanesi abandonou pela derradeira vez na volta 53, por problemas no compressor.

O GP teve ainda Gigi Villoresi em segundo, de Maserati, e Raymond Sommer em terceiro. Alberto Ascari foi o quarto, e outro futuro campeão mundial também estava no grid: Giuseppe Farina acidentara-se na volta 51.


Nesta foto, Raymond Sommer (28), em uma Ferrari 125, é perseguido pela Maserati 4CLT/48 de Luigi Villoresi (40). Villoresi chegou em segundo, uma volta à frente de Sommer: completou 74 giros, enquanto o ferrarista fez 73. Wimille, o vencedor, percorreu 75 voltas, num total de 360,00 km.
Crédito: Forix