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No meu último post, usei o verso de Caetano, que agora está no título, para me referir aos muros de Mônaco. Diante do final das últimas 500 Milhas de Indianápolis, não há como não soar repetitivo.Diante de uma prova que teve menos bandeiras amarelas do que as equipes haviam previsto, as últimas voltas pelo mítico oval foram um festival de panes secas e anticlimáticos splash and go's. No meio da massa, emergiria JR Hildebrand, rookie, como líder e favorito. Na última curva do último giro, eis que uma ultrapassagem afobada o joga contra a soft barrier.Enquanto a inércia o carrega para a linha de chegada, Dan Wheldon o ultrapassa e vence, e vira o herói. Não deixo de imaginar que, mesmo com três rodas, um claro vazamento de óleo e um motor provavelmente inativo, Hildebrand estivesse afundando o pé direito no pedal do acelerador com todas as forças de que dispunha até que sua inútil carapaça de metal parasse completamente. Em vão.Se Hildebrand não saiu da mítica prova como vencedor, ao menos ele pode se gabar de algo que Wheldon jamais (?) saberá o que é: o mundo inteiro compartilha e compreende sua cara de embasbacado.
Dia 26 de maio de 1996. O autódromo lotado assiste à octagésima edição das 500 Milhas de Indianapolis.Mas a 350 km ao norte dali, carros com as mesmas especificações também esperam pela bandeira verde, alinhados em filas de três carros. Eles estão no autódromo de Michigan e disputam a malfadada US 500.Tudo começa com a cisão entre a CART e a IRL, anunciada em 1995 e realizada em 1996. Tony George, o dono do Indianapolis Motor Speedway e promotor da corrida mais tradicional do automobilismo, anuncia a criação de uma temporada paralela constituída de três provas, a última das quais a Indy. Os carros utilizados, a princípio, teriam as mesmas especificações dos da CART.Isso sucitou o interesse dos times da CART em se inscreverem na prova, sem participar do campeonato rival. A polêmica começou, porém, quando George estabeleceu que 25 das 33 vagas do grid estariam reservadas aos primeiros colocados do campeonato da IRL - ou seja, os 20 e tantos integrantes da CART teriam de se degladiar pelas oito vagas restantes.A CART, por sua vez, decidiu boicotar o evento. Para isso, anunciou uma prova de 500 milhas para o mesmo dia da Indy, no oval de Brooklyn, Michigan. Seria a segunda a ser disputada no local no mesmo campeonato, além da já estabelecida corrida que sempre acontecia entre julho e agosto. Como provocação, o evento copiou também alguns dos procedimentos tradicionais da Indy: treinos classificatórios em fim de semana diferente do da corrida, carros alinhados em três carros para a largada entre eles.O raciocínio fazia sentido: quando ocorreu a cisão, as melhores equipes e muitos dos melhores pilotos ficaram retidos na CART. A IRL era constituída de chassis ultrapassados e motores mais fracos. Criando um evento paralelo, a atenção do público se voltaria naturalmente a eles.Estavam errados.
Como mostra a imagem do alto, a venda de ingressos não foi exatamente um sucesso. Além disso, outro fator colaborou para minar a credibilidade do público na US 500.Sendo a pista de Michigan mais estreita, não é difícil imaginar o que aconteceu com a formação de três carros por fila. Pouco antes da bandeira verde, um toque na primeira fila desencadeou um pandemônio que provocou a colisão de dez carros, incluindo o pole, Jimmy Vasser. Receosa de fazer uma corrida com apenas 16 competidores, a direção de prova permitiu o realinhamento dos acidentados - e Vasser, por fim, venceu. Tal concessão, no entanto, não foi considerada legítima por todos.Diante do fracasso, a prova nunca mais voltou a ser realizada. Os times não viam com bons olhos a realização de dois eventos por ano em um único lugar. A Indy 500 não teria mais concorrentes, mesmo a partir de 1997, quando a IRL passou a usar carros com outra especificação, tornando mais cara uma eventual inscrição de um time da CART. Fotos: No alto, André Ribeiro passa pelo posto do diretor de prova na Indy 500. Acima, o carro de Bryan Herta é rebocado em acidente pouco antes da largada. Ao fundo é possível ver a Ganassi de Jimmy Vasser, que venceria a prova.