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Wednesday, September 8, 2010

Profundamente negro: a FIA e o Deep Blue

Kasparov nutre suspeitas até hoje de interferência humana no Deep Blue, computador da IBM que o derrotou numa partida de xadrez em 1997 - a primeira vez, diz-se, que uma máquina venceu um homem neste jogo.

Para além do testemunho de Kasparov sobre a forma que os executivos da empresa o trataram, ou de quartos com acesso restrito, não há provas materiais de que isso tenha ocorrido. O fato é que, no dia seguinte à desistência do enxadrista, as ações da IBM dispararam na bolsa de valores, e a imagem da empresa mudou para sempre: a de uma fabricante de peças de computador para uma fornecedora de serviços avançados de inteligência.

Em um documentário recente, Kasparov, russo que nunca se deu bem com as autoridades soviéticas por ter derrotado seguidamente o queridinho do partido, Karpov, usa este argumento para explicar o clima daquele fatídico jogo: "Eram os anos 90. Com o comunismo derrotado, havia um certo clima de 'vale-tudo' no capitalismo. Acho que, depois da bolha [de 2001], depois da quebra da Enron, essa visão mudou".

Esta cena me veio á mente ao ler o comentário de Luis Fernando Ramos em seu blog, sobre o "julgamento" da Ferrari, hoje: "A discussão não é esta de ordem moral. [Os membros do conselho da FIA] passaram uma mensagem equivocadíssima aos fãs da categoria, a de que vale tudo em nome da vitória, inclusive quebrar as regras descaradamente, se fazer de inocente e ficar com o benefício disso em troca do valor de um carro de luxo usado".

A federação que controla a maior parte das competições automobilísticas do mundo foi incapaz de tirar qualquer lição dos erros gravíssimos que o neo-laissez-faire legou à última década. Para eles, tudo pode ser comprado, até uma vitória - por preços módicos, se for o caso de colocar panos quentes em regras mal escritas e episódios que demonstram a incompetência geral dos gestores. O público, em geral, não se mobilizará minimamente para cobrar das autoridades do esporte que acompanha que aja de forma responsável: a massa não o faz nem mesmo para cobrar seus representantes políticos, quanto mais para algo que é uma simples diversão. Ligarão a tv no domingo, e quinze dias depois, e depois, e já terão se esquecido.

Quem quiser entender a década passada deve acompanhar a Fórmula 1. O material que ela fornece para compreender o nosso tempo é assustadoramente revelador.

Wednesday, June 24, 2009

O automobilismo é um anacronismo


Mal a notícia do cancelamento da cisão entre Fota e FIA começa a se espalhar, já estamos comemorando. A Fórmula 1 não se quebrará em duas. Mas... por que então estamos comemorando, se tudo continuará igual? Estamos felizes porque tiraram o bode da sala?

Convenhamos, o imbróglio das últimas semanas pode até ter sido a disputa pelo poder (financeiro incluso) entre alguns senhores de terno. Mas essa briga sempre existiu, e nem por isso houve algum dia uma ameaça tão concreta de divisão da categoria. A relação de poderes na Fórmula 1 fora da pista foi seriamente abalada, mas talvez não tanto pelos problemas internos dessa relação. A crise na Fórmula 1 é externa à Fórmula 1.

Não consigo deixar de pensar na hipótese de toda essa briga entre FIA e Fota ser um sintoma de um fenômeno um pouco maior: um deslocamento do automobilismo na esfera e no imaginário social.

Ou então o que seria o esporte a motor senão a exaltação da máquina, da liberdade individual, do movimento e deslocamento humanos ampliados, do otimismo com o progresso? Há muito o mito do progresso vem perdendo seu vigor. Não há metrópole sem engarrafamentos. Vive-se uma crise econômica de proporções não desprezíveis.

O automobilismo é um anacronismo, tanto quanto o Art Nouveau: ambos começaram a existir quase simultaneamente, nos mesmos lugares e pelo mesmo motivo. Mas enquanto já há muito não se constroi mais prédios em
Jugendstil, a Fórmula 1 sobrevive.

Sobrevive, mas não tem mais aquela capacidade de produzir narrativas de outros tempos, tampouco aquela
capacidade de produzir imagens... Isso não quer dizer que as corridas irão acabar (ou por acaso todas as casas em Praga foram demolidas nos anos 50?), muito pelo contrário, mas que ele há de se adaptar aos novos tempos, e isso não se faz sem um certo trauma.

Que a Fórmula 1 se dividisse em duas no ano que vem ou permanecesse única, assistir corridas não vai deixar de ser um pouco como ir ao museu. O que não é nem um pouco depreciativo: ainda podemos nos maravilhar vendo
Klimts e Schieles, certo?


Friday, April 3, 2009

Ginástica Automobilística


Cnossos era rica e próspera há 4 mil anos. Encravada na costa da ilha de Creta, a cidade se aglutinava em torno de um palácio de arquitetura tão complexa que, atualmente, os especialistas consideram tal construção a inspiração para o mito do Labirinto.

Embora o mito diga que o Labirinto era a moradia de um monstro metade homem e metade touro comedor de atenienses, há evidências de que a vida real do lugar era muito mais pacífica. Numa época em que assírios e egípcios pintavam batalhas sangrentas em seus afrescos, os cretenses pintavam mulheres de busto nu colhendo açafrão e eventos comemorativos.

As grandes festas de Cnossos eram realizadas em uma praça localizada no centro do palácio. Uma das atrações dos eventos está representada no afresco acima: jovens pulam longitudinalmente sobre um touro. Por mais que a alegria esteja expressa do rosto das figuras, era uma atividade arriscada, que poderia levar a um tombo e à morte. Talvez por isso essa prática tenha mobilizado o interesse da população. É improvável que fossem eleitos vencedores, mas certamente uns impressionavam muito mais pelo arrojo do que outros.

Depois de alguns milênios, nossa sociedade resolveu reincorporar estas demonstrações cretenses de habilidade e coragem. Nos Jogos Olímpicos Modernos, porém, não se salta mais sobre um touro, mas sobre um “cavalo”, que nada mais é que uma estrutura metálica com a função de servir de apoio para saltos de ginastas olímpicos. Não há grandes riscos de morte num salto moderno. A platéia não verá sangue; talvez algumas contusões, certamente saltos fantásticos, e o grande público não faz idéia de quem é o melhor saltador: o vencedor será dado por uma bancada de juízes, que levarão em conta a complexidade da manobra e falhas de execução. Ninguém no ginásio discutirá o resultado final.

Não vejo um esporte mais distante do automobilismo quanto a ginástica olímpica. No automobilismo, o resultado de uma prova é óbvio e incontestável, mas o mérito discutível. Dois torcedores sentados na Arquibancada A de Interlagos podem passar a tarde discutindo qual piloto contornou melhor o Laranjinha.

No salto sobre o touro em Cnossos, também imagino a opinião pública discutindo qual dos jovens foi o melhor. Afinal de contas, o touro está sempre em movimento, existem várias formas de executar o pulo - da mesma forma que há muitas formas de se contornar uma curva, e nenhuma delas, a priori, é a melhor.

Os jogos de Cnossos são realmente parecidos com o automobilismo...

Mas não é isso o que os dirigentes da Fórmula 1 querem. Ao mesmo tempo em que eles tentam fazer com que saltar sobre o touro mais agressivo da cidade não provoque mortes, eles também querem ter o direito de julgar quem é o melhor saltador.

Trocou de motor? Perca dez posições. Envolveu-se em uma batida? Nós te consideramos culpado, você largará do fim do grid na próxima corrida.

Daqui a cinquenta anos, imagino o automobilismo sendo disputado: um competidor por vez dá uma volta no circuito. O vencedor não é o mais rápido. O Race Control julga as performances: “o piloto cometeu uma leve saída de traseira na curva dois, subiu na zebra da curva sete, freou depois do ponto obrigatório ao fim da reta e gastou mais os pneus do que o permitido. Sua nota será 7.25”.

Friday, August 8, 2008

GPWC – “União Européia aceita acordo e sela paz com F-1”

Os fatos narrados nesta seção aconteceram entre os anos de 2001 e 2002.

Título e informações: Folha de S. Paulo


Enquanto a Fórmula 1 vive momentos de tensão administrativa, a FIA se vê aliviada, pois, no fim de outubro, a Comissão de Competitividade Econômica da União Européia encerrou o inquérito que movia contra a entidade.

Foram quatro anos de investigações da relação entre FIA e FOM, acusadas de monopólio que violaria regras de competição econômica. Os esforços eram capitaneados pelo ex-comissário da UE, Karel Van Miert. Em certos momentos, as tensões chegaram a tal nível que a FIA ameaçava deixar de lado todas as etapas européias do calendário.

Quando Van Miert deixou o cargo, a situação se acalmou. O fim do caso se deu, segundo a UE, porque a FIA aceitou retirar “algumas restrições impostas a emissoras de tv e a proprietários de circuitos”.

Saturday, July 26, 2008

GPWC – “FIA cede direitos da F-1 por mais 100 anos”

Os acontecimentos narrados nesta seção aconteceram entre os anos de 2001 e 2002.

Título e informações: Folha de S. Paulo

Previamente negociado, antes mesmo de a KirchMedia comprar as ações da Slec, o acordo foi formalizado no fim de abril. O contrato anterior previa que a Slec deteria os direitos de transmissão da Fórmula 1 até 2010. O novo acordo dava à mesma empresa tais direitos em 2011 e nos 99 anos seguintes.

Em Paris, local da ratificação, estavam representantes das três empresas detentoras da Slec: EM.TV, KirchMedia e FOM. Às turras com a Comissão Européia, que acusava o órgão de monopólio, a FIA respirou aliviada com o acordo, soltando em comunicado: “O contrato é um passo importante para preencher os requisitos da Comisão Européia, que defende a separação das nossas atividades comerciais e esportivas”. De fato, houve boa repercussão em Bruxelas.

Ao assinar este acordo, as três detentoras da Slec concordaram com uma cláusula imposta à FIA pelas montadoras: que a Fórmula 1 deve ser mantida em tv aberta.

Ora, se isto ficou previsto em acordo, por que então as montadoras mantinham seus planos e montar uma nova categoria?

Ainda a resposta virá mais pra frente, mas já é possível adiantar alguns dados: A EM.TV e a KirchMedia, no que diz respeito às tais ações, estavam sob controle de uma só pessoa, Leo Kirch. Para garantir cem anos de transmissão, ele gastou US$313 milhões. Os gastos totais desde a compra das ações da Slec já chegavam a US$3,1 bilhões para o conglomerado de mídia alemão. Como cobrir tais custos rapidamente?

Thursday, July 24, 2008

GPWC – “Carta do Editor” de Sergio Quintanilha

Informações: Racing (18 de abril de 2001)

Sergio Quintanilha, na época editor da revista Racing, comentou em sua coluna alguns detalhes da situação. Em primeiro lugar, trata dos 75% das ações da Slec pertencentes aos grupos de mídia alemães, ambas sob o comando de Leo Kirch. “Acontece que a negociação havia sido feita com Thomas Haffa. Este, à beira da falência, passou a EM.TV a Kirch”.

“O mais incrível é que a tal Slec ainda deve US$ 360 milhões à FIA. Ou seja, Mosley pode romper o contrato e passar a Fórmula 1 ao controle da Acea (Associação dos Construtores Europeus de Automóveis) no futuro próximo”.

Na mesma edição, Nelson Piquet, que assinava regularmente uma coluna na revista, comentou o assunto. Na época, ele se dedicava a falar mal de Rubens Barrichello e exaltar conquistas brasileiras nas categorias de base. E foi ao mencionar o talento destes pilotos na Fórmula 3000 que roçou a questão: “Torço para que não sucumbam ao redemoinho que ameaça a categoria”.