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Se no ano passado ainda víamos uma Red Bull que quebrava, batia e não conseguia gerenciar determinadas situações não planejadas, em 2011 essa equipe desapareceu. No seu lugar, surgiu uma outra com a mesma vantagem técnica em relação às outras, mas muito mais organizada na pista e fora dela.Desfrutando de tamanha superioridade, era questão de tempo para que acontecessea primeira dobradinha. Ela veio hoje, na Turquia, quarta etapa da temporada.Vettel, como sempre na frente. Esta é sua terceira vitória e já é muito difícil imaginar outro prognóstico que não seu bicampeonato. Webber foi segundo, mas vem se mostrando pouco mais que um reflexo do piloto combativo do ano anterior.Ainda assim, o australiano teve que fazer por merecer sua posição final. Brigou com Fernando Alonso até as últimas voltas. Na largada, teve que se defender de Lewis Hamilton, que, afoito tentou uma ultrapassagem sobre ele em um momento impróprio. Como resultado, o inglês caiu para o meio do pelotão. Difícil saber o que teria sido da prova se Hamilton tivesse usado mais a cabeça logo após a largada, mas é provável que ele fosse um sério candidato ao pódio.De resto, como o novo regulamento parece ter tornado regra, o percurso pode ser resumido a uma série de ultrapassagens e pit stops, uns mais bem-sucedidos que outros, mas em tão grande profusão que seria uma perda de tempo entrar em detalhes. Talvez ainda seja cedo para emitir julgamentos sobre a nova dinâmica das provas. Por enquanto, tem se mostrado um antídoto contra o tédio, ainda que em prejuízo do sentido.
A Turquia foi o centro do noticiário sobre Fórmula 1 esta semana. Não, porém, porque será a próxima etapa do campeonato, mas porque pode abandonar de vez o calendário da categoria.Alegam os organizadores que a taxa cobrada por Ecclestone pela renovação do contrato é extorsiva. E é verdade. Mas o mal-estar entre Istambul Park e a Fórmula 1 é bem anterior à negociação. Data de 2006.Começou com o fim da corrida. O autódromo havia acabado de ver a primeira vitória de Felipe Massa. O clima no pódio era de expectativa, mas não apenas pela festa do brasileiro: os promotores do GP haviam anunciado na última hora a autoridade responsável por entregar o truféu ao primeiro colocado. E enfim ele apareceu, Mehmet Ali Talat, definido pela transmissão como "presidente da República Turca do Chipre do Norte". Cumprimentou o brasileiro, deu-lhe a taça.A FIA não demorou a notar o problema. O tal país não é reconhecido por nenhuma outra autoridade. A Turquia havia usado a Fórmula 1 para demarcar suas zonas de influência e afirmar soberania frente aos vizinhos. Isso, a categoria não tolera.A federação, sob sua política de neutralidade, fez uma algazarra infernal e aplicou uma multa milionária nos organizadores.O resto da história, todos conhecemos. O incidente afastou o apoio governamental do evento (aparentemente, a propaganda político-militar era a única parte interessante do GP para o governo) e a economia turca não foi capaz de sustentá-lo por si só. Arquibancadas ficavam inteiras às moscas em pleno domingo, como Nelsinho Piquet fez questão de fotografar durante a driver's parade de 2007.O elogiado traçado pós-moderno-barra-eclético erguido por Hermann Tilke a um custo absurdo virou um elefante branco. A MotoGP correu lá algumas vezes e desistiu. Agora, ao que tudo indica, veremos no dia 6 os carros passando pela última vez pela curva 8.
As mesmas cores do uniforme, mas em lados opostos do front. As duas equipes mais fortes do fim de semana, Red Bull e McLaren, competiram menos entre si do que internamente em Istambul - no caso da primeira, com enorme prejuízo.A batida entre Webber e Vettel na volta 41 foi certamente evitável, mas não parece que a manobra de algum dos pilotos tenha sido infeliz, ou anti-esportiva. Ambos mantiveram o traçado, entraram em rota de colisão e decidiram não ceder o espaço. Por mais que a Fórmula 1 asséptica tenha horror a este tipo de evento, eles fazem, ou deveriam fazer parte de qualquer corrida.O que ela atesta, no entanto, é a imaturidade de Vettel, que, com um carro visivelmente melhor, poderia ter recolhido e esperado mais uma volta ou duas. Webber apenas fez o que tinha de fazer.Com ambos fora de combate, a McLaren, sempre à espreita, assumiu os dois primeiros postos e rumaram à bandeira quadriculada. Não foi um passeio, porém, porque Button decidiu brigar pelo primeiro posto e quase teve êxito. Ao final, Hamilton obteve sua primeira vitória na temporada, que o coloca em seu lugar de direito, de postulante ao título.Interessante notar que foi uma corrida limpa, sem chuva, exceto alguns pingos desprezíveis, e sem bandeira amarela, que trouxe a emoção que se esperava após o fim do reabastecimento: mais disputas ao final da corrida, ao cair do rendimento dos pneus, que provoca uma espécie de 'clímax' tradicional, deslocado para o final da narrativa - e ao qual o público está mais acostumado. O GP da Turquia é fundamental para a legitimação do novo regulamento.
Alonso erros quando não devia ter errado. Numa pista em que os pneus macios não costumam durar muito, ele travou os dianteiros, patinou, corrigiu e os deixou quadrados demais para conseguir tempo suficiente no Q2. É normal os pilotos errarem, principalmente numa pista tilkeana como Istambul - Massa, Schumacher, Kubica, vários pilotos erraram. Alonso foi o único a fazê-lo quando não devia.A infeliz perda do ponto de freada que jogou o espanhol para a 12a posição do grid é mais um capítulo numa temporada com ares de Odisseia para ele. Sucessivas decisões mal tomadas atrás do volante têm transformado cada corrida sua numa epopeia de recuperação.O toque evitável na primeira curva em Melbourne, a ida para a pista na hora errada nos treinos em Sepang, a queima de largada na China, chassi quebrado durante os treinos livres em Mônaco. Ainda assim, devido a um campeonato rebuscado e aos caprichos de Éolo, que tantas chuvas troxe aos GPs em 2010, Fernando se encontra a meros três pontos dos líderes do campeonato, a dupla da Red Bull. A partir de agora, seus erros custarão mais caro.A pole coube, mais uma vez, a Webber. Também erraram Vettel e Schumacher, que devem sofrer alguma desvantagem devido à regra ridícula que obriga os pilotos a largarem com os mesmos pneus com que fizeram o Q3.No mais, uma outra corrida burocrática se desenha para o domingo, a ser vista 'in loco' pelas moscas turcas.
O espetáculo se apresenta como uma enorme positividade, indiscutível e inacessível. Não diz nada além de “o que aparece é bom, o que é bom aparece”. A atitude que por princípio ele exige é a da aceitação passiva que, de fato, ele já obteve por seu modo de aparecer sem réplica, por seu monopólio da aparência.
Debord, A sociedade do espetáculo
Foi inevitável não pensar nessa passagem de Debord enquanto a ultrapassagem de Button sobre Vettel aparecia na transmissão, em replay, e Cléber Machado se viu obrigado a soltar aquela muleta de raciocínio tão cara a “especialistas” do esporte: Button tem a sorte de campeão. Uma besteira imensa, uma tautologia análoga ao “o que aparece é bom...” registrado acima. Se isso fosse verdade, não seriam necessários narradores ou comentaristas. Se a Fórmula 1 é tão “indiscutível e inacessível” em seus resultados, tão óbvia, basta deixar suas imagens correrem frente aos olhos do telespectador, que tudo se explicará por si mesmo.
O GP da Turquia nos foi apresentado a nós, pela Globo, pela FOM e por tudo que a cerca, como um espetáculo. Como é de praxe na Fórmula 1 atual, porém, essa “enorme positividade” não foi exatamente aquilo que esperamos ver de um espetáculo: teve poucos momentos que poderíamos chamar de ‘espetaculares’.
Um desses poucos momentos foi a corrida de Barrichello, protagonista de várias ultrapassagens, se engajou numa longa disputa com Kovalainen até um toque de rodas fazê-lo rodar. Recuperando posições, sua saga encontrou o prematuro fim ao esbarrar em Sutil, quebrando o aerofólio e deixando-o longe dos demais competidores.
Enquanto foi protagonista, Barrichello encarnou aquele espírito villeneuviano tão raro nos dias de hoje. Mas nada disso teria acontecido se sua largada não tivesse sido um enorme fracasso.
O outro relance espetacular foi a corrida de Vettel. Quando a Red Bul o colocou na pista mais leve, ao alemão restava ultrapassar Button e abrir uma diferença para reavivar suas chances de vitória. Diminuiu a diferença para o piloto da Brawn, ensaiou algumas manobras de ataque, mas seu combustível acabou antes que este fosse consumado. Mais uma vez, nada disso teria acontecido se Vettel não tivesse errado a chicane na primeira volta, permitindo que Button assumisse de vez a liderança.
Até a disputa entre Piquet e Hamilton teve um quê de ridículo, de farsesco, o atual campeão mundial defendendo com unhas e dentes uma posição insignificante.
Em outras palavras, o espetáculo do GP da Turquia só se realizou esteticamente a partir do fracasso, do desempenho negativo.: nada mais digno para uma corrida que teve não mais de 30 mil espectadores in loco. Involuntariamente, Cléber Machado enunciou a frase que mais fez sentido no dia: “não perca, ainda hoje, após a corrida, no esporte espetacular”.

Segue o início da descrição de Suzuka presente no site oficial da Fórmula 1:
“Um dos melhores autódromos usados na Fórmula 1 atualmente, Suzuka é um enorme teste para o carro e para a habilidade dos pilotos. Construído pela Honda como um local de testes, a pista foi desenhada por John Hugenholtz, o Hermann Tilke de sua época”.
A falácia dessa última afirmação já pode ser deduzida da contradição existente na passagem. Afinal, se Suzuka é “um dos melhores autódromos usados na Fórmula 1 atualmente”, ele provavelmente é melhor que muitos dos sete circuitos de Tilke que serão usados na presente temporada.
Mas podemos fazer melhor do que isso. Podemos comparar o designer de Suzuka e Jarama com o atual arquiteto dos autódromos da Fórmula 1.
Começando por Tilke. Sua primeira manifestação visível foi a transformação de Osterreichring em A1 Ring. Um projeto deveras simples: eliminou quase todas as curvas rápidas de tangenciamento diverso e grandes desníveis e colocou no lugar grampos fechados.
Sepang veio a seguir. Seu primeiro projeto começado do zero. Uma grande área nivelada, plana. E a seguir a pista de Sakhir, no Bahrein, onde um enorme deserto era a sua folha em branco. Ao mesmo tempo, projetava a pista de Xangai.
Alguém viu uma corrida memorável em pista seca em algum destes circuitos? Todos têm em comum grandes retas, curvas muito fechadas e estão sobre grandes áreas planas. Há algumas tomadas rápidas, mas poucos especialistas as consideram desafiadoras. Não há relatos de que qualquer uma delas faça algum piloto perder o fôlego.
Em 2005, o arquiteto alemão finaliza seu primeiro projeto com variações de altura. Foi bastante louvado em sua inauguração, às vezes chamado de “o último prego no caixão de Spa-Francochamps”. Sua rápida curva 8 foi comparada a outras do circuito belga, da própria Suzuka e até de Nurburgring antiga. A curva 1 lembrava o S do Senna em Interlagos e o Saca-Rolha de Laguna Seca.
A euforia não durou muito. Jarno Trulli foi um dos mais enfáticos ao dizer que lá o rendimento do carro era mais importante que dos pilotos, e que era um circuito fácil de se aprender. A pequena curva localizada no meio da reta oposta, antes comparada à Eau Rouge, ganhou o apelido jocoso de Faux-Rouge.
As novas pistas de rua do calendário (Valência e Cingapura) e alterações pontuais em traçados atuais também são de sua responsabilidade, mas Sepang, Sakhir, Xangai e Istambul são bastante representativos da obra de Tilke. A descrição das pistas projetadas por Hugenholtz virá no próximo post, mas antes, sinta-se livre para registrar suas impressões dos projetos de Tilke aqui nos comentários.