Thursday, July 31, 2008

Capitalismo e Hungaroring


A piada já foi reproduzida pelo Ico em uma coluna no GP Total, retirada do Red Bulletin. Um médico diz ao paciente que ele tem apenas três meses de vida. Atônito, o paciente pergunta ao médico o que deve fazer. “Você pode ir a um GP da Hungria”, responde. “Isso vai me curar, doutor?”, replica o paciente. “Não, mas uma corrida lá, parece que leva anos para terminar...”.

Esta é a visão que o mundo das corridas tem da Hungria: o paradigma da monotonia, realizado todos os anos basicamente porque Bernie Ecclestone ganha muito dinheiro com ele. Além disso, é a corrida “de casa” de finlandeses, poloneses e, de vez em quando, austríacos.

Mas nem sempre foi assim. Dizem que tudo começa no início dos anos 80, quando Ecclestone inicia projetos ambiciosos: fazer uma corrida em Nova York e outra em Moscou. A etapa no centro do capitalismo foi mudada para Dallas, que só foi realizada uma vez. Já a corrida do Leste recaiu sobre Budapeste, a partir de 1986 (ainda uma economia fechada, portanto), cidade que fazia 30 anos que fora invadida por tanques soviéticos e nunca foi totalmente simpática às diretrizes moscovitas. E ela está até hoje no calendário...

Como palco, foi construída Hungaroring, não muito bem projetada para grandes emoções, mas na medida certa para as câmeras de tv e, mais importante, lento e envolto em brita, seria preciso fazer muita força para alguém morrer ali – um luxo, na época.

Além disso, seria a primeira vez que a Fórmula 1 cruzaria a Cortina de Ferro (convenhamos, as motos iam e vinham constantemente...). A equipe alemã Zakspeed, patrocinada pelos cigarros West – os mesmos das McLaren, de 1997 a 2005 -, sempre pintava um de seus carros com East (“Leste”) ao correr na Hungria e na Alemanha Ocidental (Hockenheim).

Nos primeiros anos de Hungria, podia-se chamar as corridas de muita coisa, menos de ‘monótonas’. Teve aquela ultrapassagem surreal de Piquet em Senna em 1986, briga ininterrupta pela ponta em 1988, com o vencedor chegando a metros do segundo colocado, Mansell vitorioso depois de partir do décimo segundo lugar em 1989...

Em 1990, a Zakspeed deixou de existir. Nem a piadinha com o East e West seria possível, já que o bloco comunista começava a ruir. Como o Muro...

Desde então, grandes pegas no Leste viraram artigos de luxo. Ok, tivemos Damon Hill liderando com uma Arrows até uma volta antes do fim, a primeira vitória do Alonso e uma corrida maluca na única vez que choveu, em 2006. Mas, em geral, sempre são duas horas tão modorrentas quanto o calor que faz às margens do Danúbio.E até os mais ferrenhos neoliberais hão de concordar que o GP da Hungria era melhor na época dos Trabants, dos Ladas e da Vita Cola.

Qual seria a solução? O retorno bolchevique? Não iria tão longe. Para mim, bastaria riscar a Hungria do calendário, pois seu charme era estar do outro lado, ser transgressora. Desde a queda do muro, ela é só mais um ponto no mapa, cujo passado de conquistas nos automóveis está enterrado. Mas Bernie Ecclestone ganha muito dinheiro com ela...

Wednesday, July 30, 2008

Chegar em segundo é preciso, vencer não é preciso


Por André Luiz Rozaboni

A seguir, algumas curiosidades sobre resultados de corridas de Fórmula 1 em Estoril.

1984: último GP do ano, Prost (McLaren) lidera com Senna (Toleman) em segundo e Lauda (McLaren) logo atrás. O austríaco ultrapassa a ainda revelação brasileira, chega em segundo e é Campeão do Mundo pela terceira vez com uma vantagem de meio ponto sobre Prost, o vencedor da corrida.

1986: vitória do favorítissimo Mansell (Williams-Honda) mas o campeão daquele ano foi Alain Prost (McLaren) o segundo colocado naquela corrida.

1989: depois do polêmico acidente entre o já desclassificado Mansell e o afobado ou desinformado Senna já na McLaren , Berger, companheiro de Mansell vence a corrida. O Segundo colocado? Alain Prost.Campeão naquele ano.

1990: a prova começa com uma polêmica largada dos "colegas" ferraristas Mansell e Prost com o inglês jogando o companheiro contra o muro na reta. Os McLarens os ultrapassam e dominam o começo da prova com Senna liderando Berger. Porém, Mansell reage faz corrida fabulosa e vence, Prost é apenas terceiro e o segundo colocado é Ayrton Senna, que se consagraria bicampeão naquele ano.

1991: a equipe Williams faz uma trapalhada histórica na parada para troca de pneus de Nigel Mansell. Uma roda fica solta e se solta em plena saída do pit-lane. Um mecânico desesperado faz o encaixe da roda no local e o Leão volta a pista furioso, naquele estilo impar de pilotar. Na pista, faz melhores voltas consecutivas, chega à zona de pontuação mas é desclassificado pela direção de prova por causa do procedimento da equipe na recolocação da roda. Seu companheiro, o italiano Riccardo Patrese vence a prova. Senna fica em segundo e com o tricampeonato no final do ano.

1993: Michael Schumacher, da Benetton, conquista sua segunda vitória na carreira mas o segundo lugar de Alain Prost da Williams-Renault ofusca o resultado. Era a confirmação matemática da conquista do tetracampeonato do francês no mesmo fim de semana em que ele anunciara sua aposentadoria.

1995: David Coulthard da Williams-Renault vence pela primeira vez na Fórmula 1. Michael Schumacher faturaria o campeonato com sua Benetton-Renault. Naquela corrida, chegou em segundo lugar.

1996: Jacques Villeneuve vence pela última vez no ano e seu companheiro Damon Hill chega logo atrás em segundo. Sagra-se campeão daquele ano com uma vitória na derradeira prova seguinte no Japão.

Em 1991 e 1992, e de 1994 a 2000, o vencedor em Interlagos foi o campeão mundial da temporada. Nos GPs de Portugal, entretanto, a julgar pelas estatísticas, vencer não era assim tão desejável...

Tuesday, July 29, 2008

GPWC – “Fábricas da Europa vão ter empresa para gerir F-1 própria a partir de 2008”

Os acontecimentos narrados nesta seção aconteceram entre os anos de 2001 e 2002.

Título e informações: Folha de S. Paulo

Ecclestone parecia não ter mesmo intenção de vender as ações da Slec pertencentes á FOM para as montadoras.

Já as montadoras, em maio, começavam a pensar em 2008. Uma empresa seria criada como o ponta-pé inicial para uma “nova categoria de monopostos de rodas descobertas”, como divulgava a Acea, associação das montadoras européias. À frente da Acea, sempre Paolo Cantarella e a Fiat (dona da equipe-vedete da categoria, diga-se de passagem).

Nas entrelinhas, sempre o medo de a Fórmula 1 passar para o sistema pay-per-view: “o objetivo é promover o esporte e torná-lo acessível ao maior número de pessoas possível no mundo”.


E então? Projeto sério ou puro lobby? Façam suas apostas...

Sunday, July 27, 2008

O videoclipe da Alemanha


Por causa de um cadastro que fiz há tempos para ter acesso ao Live Timing no site oficial da Fórmula 1, venho recebendo emails após as corridas sobre “vídeos exclusivos” disponibilizados por eles. O “Exclusive video edit –Germany highlights” foi o primeiro que resolvi assistir.

A seqüência de abertura é a seguinte: tomada de helicóptero do circuito de Hockenheim (ou o que sobrou dele, pois a imagem só mostra a área do Motodrom); duas jovens mulheres loiras agitando pompons nas cores da bandeira alemã na torcida, em câmera lenta; uma ôla no Motrodrom; uma grid girl escultural cujo sorriso faria qualquer um abrir uma conta no banco cujo nome está estampado em seu uniforme; Raikkonen de boné e óculos escuros; Hamilton, de capacete, no cockpit; Raikkonen, de capacete, no cockpit; Massa, de boné, sério, fazendo sinal de positivo com a cabeça; um vip qualquer entre mecânicos da Ferrari; a largada.

Isto não dura mais do que 20 segundos.

A partir de então, como o título sugere, o filme assume o objetivo de trazer as melhores imagens da prova. Alguns detalhes, porém, chamam a atenção: excesso de modulações artificiais do ritmo da cena (câmeras lentas ou aceleradas); excesso de imagens de mecânicos, chefes de equipe e celebridades no boxes, sempre com alguma expressão facilmente decifrável no rosto relacionada a uma imagem dos carros em pista; aproximações súbitas de enquadramento produzidas digitalmente.

Os recursos utilizados neste vídeo oficial são reveladores. É como se, na Fórmula 1 atual, o movimento dos carros fosse tão preciso, tão calculado e sem graça, que as câmeras precisassem se mover de forma frenética e sincopada para as imagens trazerem um mínimo de emoção.

Público-alvo
A edição das imagens, de cortes rápidos, faz com que quem não tenha visto a corrida de antemão sequer entenda o que aconteceu nela. O vídeo não é explicativo, é mais um videoclipe, o que denuncia o público-alvo na mira da FOM: os jovens.

Chamar o vídeo de videoclipe não é metáfora. A narrativa é realmente estruturada em cima de uma música. Mais precisamente, a canção Monster, da banda galesa The Automatic (um indie-rock trivial, aliás). A entrada do Safety Car ocorre no exato instante em que o riff cede lugar a um trecho sem vocais. No filme, o Safety Car parece muito mais emocionante do que ele foi ao vivo...

A seqüência de planos que estrutura a narrativa é uma fórmula várias vezes repetida. Exemplo: plano da colisão entre Coulthard e Barrichello; engenheiro da Red Bull leva as mãos à cabeça; Barrichello aparece nos boxes com expressão resignada. Só é possível notar que as imagens aparecem em ordem cronológica (ou querem produzir efeito cronológico) a partir de quando se mostra o acidente de Glock.

Motivações
O filme tem um objetivo preciso: atrair a audiência jovem para a Fórmula 1. Os jovens são os maiores consumidores da cultura, e consomem cada vez menos a Fórmula 1. Qual a solução que a categoria encontrou para o problema? Transformar as corridas em um meteórico desfilar de imagens, sem dar tempo ao espectador de decifrar a falta de sentido delas.

E, quem sabe, fazer quem o assiste abrir uma conta no banco cujo nome está estampado no uniforme da grid girl.
Imagem: someecards

Saturday, July 26, 2008

GPWC – “FIA cede direitos da F-1 por mais 100 anos”

Os acontecimentos narrados nesta seção aconteceram entre os anos de 2001 e 2002.

Título e informações: Folha de S. Paulo

Previamente negociado, antes mesmo de a KirchMedia comprar as ações da Slec, o acordo foi formalizado no fim de abril. O contrato anterior previa que a Slec deteria os direitos de transmissão da Fórmula 1 até 2010. O novo acordo dava à mesma empresa tais direitos em 2011 e nos 99 anos seguintes.

Em Paris, local da ratificação, estavam representantes das três empresas detentoras da Slec: EM.TV, KirchMedia e FOM. Às turras com a Comissão Européia, que acusava o órgão de monopólio, a FIA respirou aliviada com o acordo, soltando em comunicado: “O contrato é um passo importante para preencher os requisitos da Comisão Européia, que defende a separação das nossas atividades comerciais e esportivas”. De fato, houve boa repercussão em Bruxelas.

Ao assinar este acordo, as três detentoras da Slec concordaram com uma cláusula imposta à FIA pelas montadoras: que a Fórmula 1 deve ser mantida em tv aberta.

Ora, se isto ficou previsto em acordo, por que então as montadoras mantinham seus planos e montar uma nova categoria?

Ainda a resposta virá mais pra frente, mas já é possível adiantar alguns dados: A EM.TV e a KirchMedia, no que diz respeito às tais ações, estavam sob controle de uma só pessoa, Leo Kirch. Para garantir cem anos de transmissão, ele gastou US$313 milhões. Os gastos totais desde a compra das ações da Slec já chegavam a US$3,1 bilhões para o conglomerado de mídia alemão. Como cobrir tais custos rapidamente?

Friday, July 25, 2008

Piquet pai, Piquet filho


O relato abaixo, sobre Nelson Ângelo Piquet, foi feito por Javier Morcillo, ex-piloto espanhol e presente nos paddocks britânicos na época em que o brasileiro foi disputar a Fórmula 3 Inglesa.

No ano seguinte, na Inglaterra, começou por comprar um chassi de cada marca admitida [no campeonato] e treinar 5 meses com todos até decidir qual era o melhor para o campeonato. Fez sua própria equipe, com o melhor do melhor. Recrutou os melhores mecânicos e engenheiros, os quais mimava na base do cheque e da vida de luxo. Recordo que, enquanto os demais íamos em Ford Fiestas aos circuitos, os da equipe Piquet levavam M3 novos.

O que era espetacular de verdade eram as acompanhantes de Nelsinho, Nelson Sr. e seus amigos. Nunca soubemos ao certo quem era a irmã, quem era a namorada e quem era a ‘madrasta’, porque todas eram impressionantemente belas de vinte-e-tantos que faziam os que passavam perderem o fôlego.

Originalmente publicado na Maxi Autosport de fevereiro de 2008. Tradução livre.

Thursday, July 24, 2008

GPWC – “Carta do Editor” de Sergio Quintanilha

Informações: Racing (18 de abril de 2001)

Sergio Quintanilha, na época editor da revista Racing, comentou em sua coluna alguns detalhes da situação. Em primeiro lugar, trata dos 75% das ações da Slec pertencentes aos grupos de mídia alemães, ambas sob o comando de Leo Kirch. “Acontece que a negociação havia sido feita com Thomas Haffa. Este, à beira da falência, passou a EM.TV a Kirch”.

“O mais incrível é que a tal Slec ainda deve US$ 360 milhões à FIA. Ou seja, Mosley pode romper o contrato e passar a Fórmula 1 ao controle da Acea (Associação dos Construtores Europeus de Automóveis) no futuro próximo”.

Na mesma edição, Nelson Piquet, que assinava regularmente uma coluna na revista, comentou o assunto. Na época, ele se dedicava a falar mal de Rubens Barrichello e exaltar conquistas brasileiras nas categorias de base. E foi ao mencionar o talento destes pilotos na Fórmula 3000 que roçou a questão: “Torço para que não sucumbam ao redemoinho que ameaça a categoria”.